• Kafka à Beira-Mar

    Créditos da imagem: http://cargocollective.com/lisito/Kafka-on-the-Shore
    "Em certas ocasiões, o destino se assemelha a uma pequena tempestade de areia, cujo curso sempre se altera. Você procura fugir dela e orienta seus passos noutra direção. Mas então, a tempestade também muda de direção e o segue. Você muda mais uma vez seu rumo. A tempestade faz o mesmo e o acompanha. As mudanças se repetem muitas e muitas vezes, como num balé macabro que se dança com a deusa da morte antes do alvorecer. Isso acontece porque a tempestade não é algo independente, vindo de um local distante. A tempestade é você mesmo. Algo que existe em seu íntimo. Portanto, o único recurso que lhe resta é se conformar e corajosamente pôr um pé dentro dela, tapar olhos e ouvidos com firmeza a fim de evitar que se encham de areia e atravessá-la passo a passo até emergir do outro lado. (…) E, quando a tempestade passar, na certa lhe será difícil entender como conseguiu atravessá-la e ainda sobreviver. Aliás, nem saberá com certeza se ela realmente passou. Uma coisa porém é certa: ao emergir do outro lado da tempestade, você já não será o mesmo de quando nela entrou.”
    - Haruki Murakami, Kafka à Beira-Mar. Prólogo– Um Menino Chamado Corvo

    Kafka à Beira-Mar é um livro de realismo fantástico escrito em 2002 pelo aclamado escritor japonês Haruki Murakami. A história gira em torno de dois personagens: Kafka Tamura, um garoto de 15 anos que resolve fugir de casa, e Satoru Nakata, um idoso que sofreu um acidente misterioso na infância que o deixou “ruim da cabeça”. O enredo dessas personagens ocorre, inicialmente, em paralelo, mas com o desenvolver da trama descobrimos que ambos estão interligados.

    Esta obra de Murakami é uma viagem solitária em busca do “eu”. Aos 4 anos de idade, o jovem introvertido Kafka Tamura é abandonado pela mãe e pela irmã. Ele atualmente mora com o pai, mas o relacionamento entre os dois é distante e frio. Sente-se deslocado daquele ambiente que vive e é movido pela vontade de fugir e perseguir um caminho desconhecido. Algo em seu íntimo diz que, se ele permanecer onde está, acabará sendo “desvirtuado” de seu ser.

    Kafka” (em checo, significa “Corvo”) é, na verdade, um nome falso que o jovem adota – seu verdadeiro nome não é revelado e uma referência clara ao escritor Franz Kafka. O diálogo interno de Kafka Tamura também ocorre com um garoto chamado Corvo. Este representa a intuição, a autoanálise, a tentativa de sair do invólucro chamado “eu” e enxergar a si mesmo como outra pessoa de fora. O Corvo de Kafka Tamura é o lado indagador, inquieto do jovem, que o acompanha durante sua jornada sem rumo.

    Kafka sente-se perturbado pois seu pai lhe lançou uma maldição, semelhante à de Édipo rei: Kafka matará seu próprio pai e desposará sua mãe e irmã. Kafka vive incomodado com isso e, por mais que tente, ele sente que seu esforço e vontade é sempre em vão e está se distanciando do seu próprio caminho. É uma sensação dolorosa e apavorante que o persegue. Oshima, um bibliotecário bastante inteligente que Kafka Tamura conhece durante sua jornada, explica o que o jovem fugitivo está vivenciando uma tragédia grega, na qual não é produto de suas fraquezas, mas, ironicamente, de suas qualidades.

    Créditos: http://clumsyblunder.deviantart.com/
    Do outro lado temos Nakata, um idoso considerado deficiente mental que vive de pensão do governo. Na infância, Nakata era uma criança inteligente e promissora, porém, após um misterioso acidente, ele perdeu a memória e a capacidade de ler e escrever.

    Após esse incidente, sua existência tornou-se insignificante não só na escola como também em casa. Os pais abandonaram Nakata aos cuidados dos avós e concentraram a atenção nos outros dois filhos mais novos. Apesar de tudo, Nakata não se aborreceu com isso e nunca se considerou infeliz ou solitário pela vida que teve. Nakata é muito bondoso, humilde e possui o estranho dom de conversar com gatos. Aliás, esse foi um dos efeitos que o idoso sofreu após o acidente na infância. Os felinos não consideram Nakata burro por ser analfabeto, eles o admiram por ser o único humano capaz de entendê-los.

    Além da pensão do senhor governador, Nakata consegue alguns trocados e comida procurando gatos perdidos na vizinhança. Sua missão é encontrar Goma, uma gatinha doméstica, malhada e muito querida pela família que a criou. No entanto, essa tarefa guiará Nakata a acontecimentos obscuros e perigosos, que o levarão a cometer “coisas” que jamais pensaria ser capaz.


    Considerações Finais
    Kafka à Beira-Mar é um livro fascinante. O enredo é um misto de realidade e fantasia que nos leva a refletir sobre vários temas: coragem, medo, morte, vazio, abandono, amor, identidade, sexualidade, passado etc. Na verdade o livro vai além, e passamos a indagar por que essas sensações estão incrustadas em nós e como encará-las. Mergulhamos nos pensamentos de Kafka Tamura e no vazio de Nakata e passamos a refletir sobre nós mesmos.

    Apesar da premissa estar muito ligada à história de Édipo rei, a leitura vai além e faz muitas outras referências: desde tragédias gregas, lendas japonesas, até personalidades e marcas famosas, como Johnnie Walker, Colonel Sanders, Beethoven, entre outros. É um misto de literatura, filosofia, música, cultura tradicional e pop.

    Além de Kafka Tamura e Nakata, outros personagens também cativantes surgem no enredo: Sakura, uma garota que oferece ajuda a Kafka quando ele encontra-se sozinho numa cidade estranha, Senhora Saeki, a elegante diretora da biblioteca que esconde um passado triste e nele vive até hoje, Hoshino, um jovem caminhoneiro de “cabeça oca” e que não gosta de complicar muito as coisas.

    Com certeza a leitura de Kafka à Beira-Mar trará mais dúvidas do que esclarecimentos. O livro possui um final satisfatório, porém detalhes não são explicados, o que leva o leitor a indagar a razão de várias coisas. Há embutida uma mensagem, as experiências vividas por Kafka e Nakata são de significado especial e até encorajadoras.

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