• 1Q84 - Livro 2


    "(...) quando se passa de uma certa idade, a vida se torna uma sequência de perdas. Coisas que consideramos importantes em nossas vidas começam a escapar uma por uma de nossas mãos como os dentes do pente que se quebram com o tempo. A substituição nunca deixará de ser uma medíocre imitação. Todas as coisas e pessoas que estimamos desaparecerão uma por uma: a capacidade muscular, os desejos, os sonhos, os ideais, a confiança, o sentido das coisas e as pessoas que amamos. Enquanto algumas irão se despedir antes de partir, outras desaparecerão de repente, sem aviso. Uma vez que as perdemos, jamais as teremos de volta. Em nada vai adiantar substituí-las. Realmente, é muito triste. Às vezes, a dor é tão intensa como se estivessem arrancando uma parte do nosso corpo. Senhor Kawana, dentro em breve, o senhor vai completar 30 anos. Aos poucos o senhor estará adentrando a fase crepuscular da vida. Em outras palavras, isso significa que irá envelhecer. O senhor já deve estar começando a vivenciar a dor de perder algo. Será que estou equivocado?"

    Terminei recentemente a leitura do segundo livro da trilogia 1Q84 de Haruki Murakami. Nesta postagem vou descrever um pouco da história, e por conta disso haverá algumas revelações do enredo. Sugiro que, caso ainda não conheça a obra, leia a postagem que fiz do primeiro livro.

    Ao contrário do que citei anteriormente sobre o primeiro livro, a história de 1Q84 fica mais densa de reflexões internas e acontecimentos intrigantes. É incrível como Murakami conquista o leitor em poucas páginas, até o ponto de não querermos mais desgrudar da história.

    Aomame assume uma nova missão arriscada: matar o líder religioso de Sakigake. O confronto envolve não só a vida de Aomame, mas também a de Tengo, tendo em vista que ambos estão a desfavor do Povo Pequenino. Acontece que Sakigake é um grupo poderoso e influente, e alcançar seu líder envolve uma série de barreiras e sacrifícios. Aomame, caso consiga cumprir sua missão, terá que mudar de rosto e nome para continuar viva.

    Tengo, por sua vez, recebe a visita de um estranho homem mal intencionado chamado Ushikawa que oferece uma grande quantia de dinheiro. Em troca, Tengo trabalharia numa misteriosa associação, manteria o silêncio, esqueceria tudo e seria “protegido”. Encoberto de formalidades, porém sem deixar o tom de ameaça, o homem parece saber sobre o segredo e parceria entre Tengo e Fukaeri na reescrita de Crisálida de Ar. 
    Até então Tengo se manteve distante dos assuntos relacionados à Crisálida de Ar e pretendia ter uma vida normal. Mas a obra, agora um best-seller, revela detalhes que não deveriam ter caído nas mãos do público.

    Também somos remetidos para os conflitos psicológicos entre Tengo e seu pai. A relação entre os dois não fora amistosa na infância e até hoje Tengo não sabe quem é a sua mãe. A teoria de Tengo é que a mãe abandonara os dois e o pai só cuidou de Tengo na esperança de tê-la outra vez. Numa tentativa de esclarecer a situação, ele vai visitar o pai, que agora vive num asilo, porém sem sucesso. Temos aqui uma relação complicada, de experiências de vidas cobertas de tristeza, raiva e rancor. Mas acima desses sentimentos, Tengo começa a desenvolver gratidão pelos dias horríveis que o pai proporcionou quando tinha 10 anos de idade, e perdoá-lo por isso.

    A história de Crisálida de Ar é revelada nesse segundo livro. Os elementos da história ganham sentido: descobrimos quem é Fukaeri e o Povo Pequenino, cujas intenções ainda não são bem claras, e também por que existem duas luas no céu.

    Aomame e Tengo demonstram que ainda amam um ao outro, apesar de terem se passado 20 anos. Por alguma razão os dois foram transportados para o mundo de 1Q84, e algo me diz que isso tem a ver com a pureza do sentimento e da lembrança que ambos compartilham da infância, quando ambos tinham apenas 10 anos de idade: o momento em que Aomame segurou de forma firme e decidida a mão de Tengo.

    "Naqueles dez segundos em que Aomame segurou sua mão, Tengo conseguiu captar muitas coisas, como uma câmera que registra fielmente todas as imagens na retina. Aquela teria sido uma das imagens fundamentais para que ele conseguisse sobreviver aos seus 10 anos de grande sofrimento. Aquele cenário sempre era acompanhado do intenso toque dos dedos da menina. A mão direita de Aomame o encorajava a enfrentar os sofrimentos que o transformariam em adulto. A mão dela lhe dizia: não se preocupe, estou com você."

    Enfim, as revelações do segundo livro me deixaram muito curiosa. Gostei bastante e espero que não ocorra uma “fatalidade” de a história desandar no terceiro livro. Teve um acontecimento no final que me deixou bem triste e um pouco desapontada, mas acredito que tudo depende de como será o desfecho.
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